SAFERGS

Onde est


    Se eu puxar por todos os registros importantes da minha vida de torcedor colorado, para tentar encontrar neles alguma coisa referente à atuação de juízes ou bandeirinhas, a busca será em vão. Por mais que me esforce, não encontrarei nada que envolva esse pessoal, que habitualmente entra de preto e corre bastante, mas não à procura de um posicionamento em busca do passe.

    Ou vou recordar alguma coisinha: posso lembrar de alguma injustiça recente, como aquela expulsão do Tinga no Brasileiro de 2005, contra o Corínthians, quando ele é que havia sofrido a falta (e era pênalti a nosso favor); posso recordar algum erro mais antigo, talvez em algum Gre-nal, ou mais ainda na Copa de 78, quando o juiz anulou um gol brasileiro alegando que quando a bola estava no ar, vinda do escanteio, tinha esgotado o prazo do jogo (e o juiz se não me engano era suíço, quer dizer, da terra dos relógios precisos…). Quer dizer: lembro muito pouco, e quando lembro é coisa ruim.
   
   De todo modo, não sou de guardar mágoas a respeito de eventuais injustiças ou imprecisões de arbitragem; mas também pode ter a ver com a natureza da atuação dos árbitros. Quando vejo um jogo, ao vivo ou pela tevê, confesso sentir algo ambíguo acerca de juízes e bandeiras: eles estão ali, são indispensáveis, mas na melhor hipótese de sua atuação, quando tudo dá certo, eles não aparecem, nem seu nome permanece para além de seu tempo. E precisam ter talento, sem dúvida.
 
  Aí está tudo: eles são imprescindíveis mas não devem aparecer; sem eles o espetáculo não existe, mas eles devem passar batidos pela observação do torcedor, que é a razão de ser do futebol. Acho que é por isso que não consigo guardar mágoa de juiz, porque percebo que dura vida é a sua.

    Imagino que todo profissional do apito e da bandeira bateu sua bolinha na infância, e talvez ainda arrisque uma pelada com os amigos e colegas. Isso quer dizer que todos eles conhecem o peso da bola quando matada de jeito no pé, avaliam com sua própria experiência o modo como se cai numa trombada com zagueiro, sabem perceber claramente a trajetória de uma bola batida com efeito; isso quer dizer que todos eles vivem um jogo como qualquer um de nós, torcedores que alguma vez arriscamos uns chutes num time da infância ou da juventude — isso quer dizer, em suma, que juízes e bandeiras vivem a intensidade dessa experiência radicalmente humana que é o futebol. Mas precisam silenciar no peito o desejo de brilhar, para bem exercerem seu metiê. Gente especial essa que apita e agita a bandeirinha.

* Luís Augusto Fischer,
professor de Literatura e escritor,
autor do “Dicionário  de Porto-Alegrês”, entre outros.

Texto publicado  no Jornal Marca da Cal, setembro de 2007

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