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Apitos eletr


    OK, nem precisa ser sob tortura, confesso meu amplo, total e irrestrito desprazer em analisar decisões de arbitragens, salvo quando se caracterizam equívocos estrondosos, daqueles que exigem considerações mais prolongadas pela sua natureza e efeitos. Descontadas estas exceções, afundo em incertezas quando me deparo com a necessidade de endossar ou reprovar a decisão do árbitro.  Faço-o, apenas, por obrigação profissional e por contar com o assessoramento precioso da televisão.

   E sabem por que não gosto de comentar arbitragens? Por várias e singelas razões: por não ser vocacionado para esta atividade, porque nunca fiz um curso de arbitragem, por me faltar o indispensável reflexo para decidir em um átimo de tempo e, principalmente, porque sempre me disponho a fazer o melhor comentário de jogo mas, às vezes, sei que não consigo, e assim deve acontecer com os árbitros, sua ampla maioria, pelo menos.

    O que já escrevi e escreverei até o final deste texto, nada tem a ver com o fato de que cumpro a agradável tarefa de me expressar em um veículo de comunicação corporativo, voltado para o universo da arbitragem. Quem me conhece sabe que nunca digo menos do que realmente penso. Tenho sido, no meio profissional que laboro, um contestador da "análise de arbitragem", por fartos motivos. Porém, bastaria um: o futebol em nada é favorecido pelas largas discussões que desabam sobre eventuais decisões tomadas por um árbitro. Pelo contrário, o que deveria ser entendido, apenas, como um erro natural acaba se transformando em fermento nas paranóias próprias do futebol.

    Não cometerei, contudo, o ingênuo erro de alinhar todos os árbitros no alto pódio. Como em qualquer atividade, existem os mais talentosos, dedicados, equilibrados, competentes e, até, mais honestos. Entretanto, o tempo, opinião pública e responsáveis pelas arbitragens acabam, sempre, consagrando os bons e marginalizando os demais.

    Os olhos eletrônicos da televisão, assessorando olhos humanos na tarefa de vigiar o árbitro, se constituem em uma das mais gritantes injustiças e, por que não dizer, atos de covardia. Ao árbitro é impossível competir com tantos e tão desenvolvidos, tecnologicamente, olhos. O diabo é que sabemos e admitimos, todos, esta realidade. Mas, infelizmente, seguimos "caçando mosca com canhão", pois esta é a proporção exata dos recursos disponíveis para quem analisa e os utilizados por quem apita.

    Mesmo assim, apesar da minha contrariedade pessoal, seguirei analisando arbitragens, embora com a parcimônia e cuidados que entendo serem indispensáveis. Faria diferente, se dependesse apenas da minha vontade. Mas, como a paixão popular exige posição de quem faz jornalismo de opinião, quem me lê e escuta continuará tendo a minha, ainda que desnudada do espalhafato verbal, quase requerido. E que Deus me ajude a não errar, embora dos meus eventuais erros não frutifiquem conseqüências que não seja a injustiça involuntária.


* Wianey Carlet, jornalista, comentarista da Radio Gaúcha

 Texto publicado  no Jornal_MARCA DA CAL agosto  de  2007


  

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