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Meu


    Na várzea, em Porto Alegre, na Cidade Baixa, o primeiro juiz de futebol, respeitável, que conheci – entre a minha infância e juventude – chamava-se Carlitos. O seu Carlitos. Não lembro de sua profissão, mas deveria ser aposentado. Dentro e fora de campo era um homem sério de chapéu e barrigudinho. Fumava palheiro, gostava de uma cervejinha e, aos meus olhos de guri, não era de muita conversa.
    Nunca tive coragem de dirigir-lhe uma só palavra. No meu tempo, piá não participava das rodas de adultos, a não ser como ouvinte e, ainda assim, era mandado cair fora se o assunto fosse considerado inconveniente para ouvidos imaturos. Minha admiração pelo seu Carlitos, portanto, era silenciosa. Com raridade ele apitava jogos da gurizada, que ficavam a cargo do seu Geraldo. Bom juiz o seu Geraldo, mas como ele era zagueiro do time de adultos do Canto do Rio não inspirava a mesma confiança, pois o seu Carlitos era, unicamente, juiz.
    Nos principais jogos que aconteciam na beira do Guaíba, junto à rua Pantaleão Telles, hoje Washington Luiz, o seu Carlitos era chamado e atuava solito, pois não era dos costumes da época, na várzea, a participação de bandeirinhas.

    Na era do seu Carlitos, jogava no Canto do Rio um mulato bom de bola e de briga. O Bira Canhoto. Gente boa. Saia no braço somente em última instância e, quando isso acontecia, enfrentava três quatro numa mesma rodada sem sofrer um só um arranhão. Eu gostava de ver o Bira Canhoto jogar e o seu Carlitos apitar. Foi por ai que comecei a ter noção dos primeiros fundamentos da ponta esquerda (posição do Bira Canhoto), das brigas de rua e, principalmente, de arbitragem, pois o seu Carlitos, para mim, só foi superado pelo Mr. Barrig (será este mesmo o nome?) um juiz importado da Inglaterra que, por alguns anos fez sucesso no Rio Grande do Sul.

    Devo revelar, no entanto, que, numa tarde de domingo, jogava o Canto do Rio contra o time do Moisés, um negro de quase dois metros de altura lá da Volta do Gasômetro. O seu Carlitos, naturalmente, foi o juiz escolhido e o Bira Canhoto estava lá na ponta esquerda do Canto do Rio. Partida dura, duríssima. Zero a zero. Finzinho do jogo. Uma bola foi cruzada e Bira Canhoto, aos meus olhos, em completo impedimento, de cabeça, fez o gol validado pelo seu Carlitos. Não houve briga, pois de briga, não obstante o tamanho de Moisés, Bira Canhoto entendia. Além disso, o seu Carlitos era inatacável.
   
    Foi duro de engolir, mas, ainda assim, o meu ídolo do apito é o seu Carlitos, barrigudinho, de chapéu e de palheiro.

* Wanderley Soares –  Jornalista e escritor

Texto publicado  no Jornal MARCA DA CAL junho de 2007

1 comentário

  1. Abel

    17 de setembro de 2017 at 10:53

    Ou Wanderlei já naquela época já havia erros de arbitragem, não tinha mídia, para incomodar árbitro

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