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Impedidas pelo preconceito: Mulheres são mais cobradas quando cometem erros de arbitragem

2017. Crédito: Kin Saito/CBF. Treinamento de arbitragem feminina na Granja Comary. Assistente Tatiane Sacilotti.

Na foto, Tatiane Sacilotti, que faz parte dos 18,6% das mulheres no quadro de assistentes da CBF.
Na semana do dia internacional das mulheres, elas são as protagonistas. Mas, nos outros 364 dias do ano, não. Ao menos, não no futebol. Mesmo que o Brasil conte com a “Pelé de saia” — embora nem Marta nem nenhuma outra jogadora atue com uniforme customizado —, a Seleção teve a primeira técnica apenas em 2016, e no comando da equipe feminina. Entre os clubes masculinos, cogitar a contratação de uma treinadora ainda soa como algo espantoso. Se nos bancos de reservas ou em cargos de gestão as mulheres são quase invisíveis, na arbitragem, ganham um pouco mais de espaço. Então, o preconceito passa para a fase seguinte: resistir ao tratamento desigual no exercício da profissão.

“Todas as vezes em que a gente entra em campo, as pessoas acham que não vamos conseguir apitar as partidas. E isso parte de todos os envolvidos: torcida, jogador, comissão técnica”, lamenta a ex-juíza Simone Silva, 42 anos, que atuou no quadro nacional de arbitragem da CBF de 2007 até o ano passado. “Quando uma mulher estreia, causa mais dúvida do que um homem, e tudo gera suspeita de capacitação.” Ela expõe que sempre sofreu preconceito na carreira. Nos 17 anos de arbitragem, apitou o Campeonato Carioca feminino e masculino e a Série D do Campeonato Brasileiro masculino.

Para a carioca, o peso do erro de um homem é bem diferente da falha de uma mulher. “Nós somos muito mais sacrificadas. Tenho certeza porque vivenciei isso”, desabafa ao lembrar que as desconfianças ocorrem até em situações de acertos. “O futebol é muito masculino, e a gente ainda escuta que lugar de mulher não é no futebol.” Para lidar com a pressão que sofria nas partidas, Simone se lembra que se concentrava bastante para não cometer erros “infantis” no começo do jogo e ganhar credibilidade. “Depois, passei a driblar a pressão com sorrisos, gracinhas e brincadeiras.”

Nem sempre, porém, a estratégia é suficiente. A agora ex-bandeirinha Ana Paula Oliveira — um dos nomes de maior destaque da arbitragem feminina — foi vítima, em 2007, da fúria preconceituosa do então vice-presidente do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro. Ele protestou contra dois gols anulados incorretamente pela assistente, com a consequente eliminação do alvinegro da semifinal da Copa do Brasil, em duelo contra o Figueirense. “Ela é totalmente despreparada. Errou dois lances seguidos. Não vejo mulher em Copa do Mundo, não vi mulher na final da Liga dos Campeões nem nas decisões mais importantes do mundo, mas colocaram uma mulher hoje, justo contra o Botafogo”, vociferou, na ocasião.

Fernanda Colombo foi outra bandeirinha atacada por dirigentes de clubes importantes com “argumentos” que fogem ao desempenho profissional. “A gente pega essa bandeira bonitinha. Se ela é bonitinha, que vá posar na Playboy”, disse o diretor de Futebol do Cruzeiro, em 2014, Alexandre Mattos. À época, Fernanda impediu uma jogada que poderia resultar num gol: marcou impedimento inexistente do cruzeirense Alisson, aos 41 minutos do segundo tempo, no clássico que terminou com a derrota do time celeste para o Atlético-MG no Brasileirão.

Ambos os casos envolveram falhas graves, é verdade. Como consequência, além de sofrerem o afastamento, as duas sucumbiram aos ataques preconceituosos e acabaram não conseguindo retomar a carreira. Na ocasião, Ana Paula foi suspensa por 15 dias. Nos treinos para retornar à arbitragem, ela lesionou a tíbia e acabou reprovada no teste físico da Fifa, com direito a polêmica pelo fato de a entidade não a ter isentado do exame físico, já que a bandeirinha era assistente Fifa e estava contundida.

O currículo de Ana Paula, com atuações em finais de estaduais, como São Paulo x Corinthians, em 2003 — foi a primeira mulher a atuar —; e em oitavas de final da Copa Libertadores, em 2005; e com o prêmio de árbitra revelação dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004, não foi suficiente diante dos erros no jogo do Botafogo. Naquele mesmo ano, ela fez ensaio fotográfico nua para a revista Playboy, e as críticas à profissional aumentaram. A aposentadoria era questão de tempo e foi anunciada oficialmente em 2012, aos 34 anos.

Fernanda, aos 25 anos, também se diz aposentada da função. Ela ficou conhecida como musa, apelido que ganhou pela beleza, embora tenha trabalhado em mais de 50 jogos profissionais e chegado a ser aspirante Fifa. A carreira ia bem até o fatídico impedimento equivocado no clássico mineiro. Após o afastamento, foram quase dois meses para voltar a exercer a função, mas na Série C do Brasileiro.

Após uma década, novamente uma mulher na final
Antes da polêmica com o Botafogo, Ana Paula Oliveira atuou na final da Copa Brasil de 2006, entre Flamengo e Vasco. “Fui muito bem, mas foi uma loucura a repercussão”, recorda. Só após 10 anos, Nadine Silva compôs novamente um trio de arbitragem em uma final, desta vez entre Atlético-MG e Grêmio, pela Copa do Brasil. Desta vez, o fato não foi tão noticiado. “Meu lamento foi que levou tanto tempo para termos uma mulher novamente na arbitragem de uma final, mas a forma como foi tratado, com naturalidade, é uma conquista”, comemora Ana Paula

“Meu único medo era se a Nadine tivesse cometido um equívoco na final. As mulheres ainda são muito mais cobradas. Se uma mulher errar hoje em uma situação crucial, acho que a repercussão ainda vai ser maior” pressupõe Ana Paula, agora instrutora e diretora-secretária da escola nacional de arbitragem de futebol da CBF. No entanto, ela acredita que seria menor do que foi nos tempo em que ela atuava. “Na minha época, era diferente. Hoje, não dá para aceitar mais isso. É inadmissível tratar homens e mulheres diferentes com erros iguais”, condena Ana Paula.

Ainda que seja inadmissível, até mesmo alguns jogadores reparam na exigência excessiva com a arbitragem feminina. Otávio Henrique Santos, meia do Atlético Paranaense, reconhece o tratamento diferenciado. “Você vê bastante erro na arbitragem em geral, mas como não é tão comum ver mulheres na função, as pessoas analisam mais e ficam mais atentas em cada lance.” Para ele, a presença feminina dentro de campo não muda quase nada em um jogo. O único ponto diferente é o tom de voz na hora de reclamar. “A gente fica meio constrangido para reclamar e quando é uma mulher temos um cuidado maior na hora de falar”, explica.

Apesar de terem ganhado mais espaço ao longo do tempo, as mulheres têm presença tímida na arbitragem. Dos 215 árbitros presentes no quadro da CBF, apenas 15 são do sexo feminino, o que corresponde a 7%. O número de assistentes é um pouco maior: 58 mulheres em um total de 311, chegando a 18,6%. “A procura das meninas quando entram no curso é somente a assistência. São raras as exceções que querem ser árbitras centrais. E isso acontece porque elas não são vistas”, afirma Simone Silva, ex-árbitra, que hoje atua como instrutora da Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (EAFERJ).

No curso de formação de árbitros de 2016 da EAFERJ, entre os 35 alunos, apenas quatro eram mulheres. Neste ano, o número caiu para somente duas. Rejane Caetano, 30 anos, fez o curso em 2011 e hoje é a única árbitra do Rio no quadro da CBF. Ela apitou 22 partidas em 2016 e entrou no quadro da Fifa neste ano. “Quando entramos na arbitragem, fazemos um cronograma de metas. Fico feliz, pois as coisas aconteceram rápido comigo”, analisa.

Apesar de o espaço para a mulher dentro do futebol ser menor e diferente do ocupado pelo homem, a exigência física é igual. As mulheres têm de conquistar o mesmo índice deles nos testes físicos para apitar em campeonatos masculinos. Rejane concorda com a exigência, mas reconhece que é a parte mais difícil. “A parte física é a que mais exige de nós”, avalia. A professora de educação física conta que consegue dividir um pouco do tempo para treinar e atingir o índice para apitar em torneios masculinos. Em 2017, ela também estreou na Série A do Campeonato Carioca.

Simone relembra os árduos testes para conseguir a chance de apitar um campeonato masculino. “Tem de ter tempo pra treinar e também para descansar porque é muito pesado”. Para ela, o investimento nem sempre tinha um retorno positivo como os que árbitros masculinos recebiam. “Era difícil fazer sacrifícios, conseguir completar o teste físico, estar pronta e, ainda assim, não ter o mesmo aproveitamento que os homens”, critica.

A jogadora de futebol Dany Helena, ex-Cresspom que atuará pelo Iranduba da Amazônia no Brasileiro feminino, ressalta a representatividade das árbitras mulheres nos torneios femininos internacionais. “Disputei a Copa Libertadores no ano passado e só mulheres apitaram as partidas que joguei. Que elas possam ter mais espaço no Brasil também”, almeja. A técnica Gleide Costa, que comandará o Botafogo PB na Série A2 do Brasileiro feminino, vê uma crescente da participação feminina no futebol embora não seja a desejada. “Vem crescendo a passos muito pequenos, porque o critério tinha de ser competência e não gênero. Na prática, ser mulher é um empecilho”, lamenta.
Exemplo da pioneira
Léa Campos: primeira árbitra do mundo

pioneira

Asaléa de Campos Micheli nasceu em 1945, época em que as mulheres eram proibidas por lei de praticarem esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”. Sem a intenção de jogar, a mineira se formou árbitra em 1967. Encontrou uma brecha no decreto-lei nº 3.199, de 1941, que dizia não ser “permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e baseball”.

Léa Campos, como é chamada, foi a primeira árbitra de futebol no mundo de que se tem conhecimento. “Eu me sinto feliz quando uma mulher é escalada, seja como auxiliar, seja como árbitra central. Elas passaram pela porta que abri e fico muito orgulhosa por isso”, disse Léa Campos, os 72 anos, ao Correio.

Fonte: Maíra Nunes, Maria Eduarda Cardim: superesportes.com.br

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